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Renato Modernell
O adágio Ex oriente lux,
expressão latina que
significa “a luz vem do
Oriente”, comporta dois
significados. O mais
imediato diz respeito à luz
do Sol: é lá que ela nasce,
nos países do “Levante”, e
depois aos poucos se projeta
sobre esta parte do planeta
onde vivemos, dissipando a
escuridão e embriaguez do
sono. O outro significado
dessa expressão, conhecida
dos antigos romanos, é mais
sutil. Está ligado não aos
raios solares, mas à
sabedoria necessária no
percurso da existência
humana.
Sempre que o mundo ocidental
entrou em crise, ou se viu
diante de dilemas e
incertezas, de algum modo se
voltou para o Oriente – em
busca de orientação, como a
própria palavra já indica.
Foi assim com os sábios
gregos; com o general
macedônio Alexandre; com as
caravanas medievais ao tempo
de Marco Polo; com os
navegadores ibéricos; com
artistas europeus do século
19; com o psicólogo suíço
Carl Gustav Jung, adepto do
I Ching; com o escritor
Herman Hesse, cuja ficção
está permeada da filosofia
oriental; com os Beatles,
que foram à Índia e usaram
cítaras; e assim também com
os expoentes da
contracultura, na década de
1960.
O Oriente, como um velho
senhor que pouco sai de
casa, ou um guru silencioso,
sempre esperou que o
Ocidente fosse até ele, em
busca de verdades milenares
que funcionam como faróis em
meio ao oceano. O Oriente
esperava, não se movia; e
daqui partiam os peregrinos,
as caravelas, os poetas e os
visionários, para trazer
especiarias espirituais e
pérolas filosóficas
buriladas pelo tempo.
Traziam e as aplicavam aqui
e ali, em pequena escala,
numa sociedade dominada pela
febre da produção e da
velocidade.
“O pensamento contemporâneo
ocidental está viciado pelo
excesso de especialização”,
afirmava três décadas atrás
o historiador e professor
britânico Arnold Toynbee
(1889-1975), classificado
pela revista Time como um
“sábio internacional” do
porte de Albert Einstein e
Bertrand Russell. Ele
continua: “A imagem que se
forma na mente humana de um
fragmento da realidade é
distorcida se
arbitrariamente o separamos
de seu ambiente e o
estudamos como se fosse um
entidade auto-suficiente e
não – como de fato acontece
– parte inseparável de algo
mais abrangente. Acho também
que a análise sociológica
contemporânea no Ocidente
perde contato com a
realidade por analisar os
assuntos humanos em cortes
transversais irrealistas,
instantâneos, divorciados do
passado e do futuro, como se
a vida fosse uma
natureza-morta. Na
realidade, a vida é móvel e
não pode ser vista como
realmente é, a menos que
fluindo na corrente do
tempo.”
Era um diagnóstico
inquietante do tipo de vida
que vivemos. Porém algo
fluiu intensamente ao longo
desses 30 anos. Pode-se
dizer que o Oriente já não
está mais lá, onde sempre
esteve, lá onde nasce o Sol.
O Oriente chega até nós como
uma onda de novos hábitos,
valores e símbolos que se
infiltram no nosso cotidiano
assim como os fótons,
partículas de luz, penetram
na escuridão. Os indícios
estão por todos os lugares.
O signo do yin-yang, por
exemplo, já se tornou para
nós tão familiar quanto o
logotipo dos grandes
fabricantes de automóveis.
Técnicas terapêuticas
orientais abrem espaços
importantes no campo da
assistência médica. As
culinárias chinesa e
japonesa já perderam o seu
caráter exótico e se
integraram ao dia-a-dia dos
habitantes dos grandes
centros. Os novos modelos de
gestão empresarial
incorporam conceitos
filosóficos usados há
milênios do outro lado da
Terra.
Seria irreal pensar nos
processos mencionados, e em
muitos mais, como simples
modismos ou fenômenos
isolados. Deveria haver uma
concepção do mundo, por trás
deles, servindo-lhes de
força propulsiva.
Aqui surge o budismo. É
verdade que, dos seus
estimados 360 milhões de
praticantes existentes no
mundo, pouco mais de 240 mil
estão no Brasil, segundo o
censo do ano 2000. Porém há
claros sinais de expansão: a
prática ultrapassa as
colônias mais fechadas, as
diferentes escolas dialogam
entre si e traduzem textos
fundamentais para o
português.
O acontecimento mais
importante do século 21
seria a chegada do budismo
ao Ocidente. Esta afirmação
do mesmo Toynbee parece bem
perto da realidade. Nos
últimos anos, cientistas
ocidentais de vanguarda
buscaram estabelecer
conexões entre seus métodos
investigativos e os mais
tradicionais métodos
budistas de domínio do mundo
sutil. Com base nisso, vemos
hoje prestigiosas
universidades americanas,
como as de Princeton e
Stanford, desenvolver
estudos avançados nos campos
da telepatia e dos sonhos,
respectivamente. O velho
sábio britânico, portanto,
uma vez mais tinha razão.
Porém essas são idéias
gerais, aplicáveis a um arco
de tempo que supera em muito
os anos de vida de uma
pessoa. Uma pergunta precisa
a ser feita e respondida: o
que o budismo tem a oferecer
ao Brasil, hoje, como
embrião de uma nova vertente
educacional?
Flexibilidade talvez seja a
primeira palavra a ser
usada. Bem mais do que as
religiões ocidentais, o
budismo apresenta-se como
uma doutrina plástica,
adaptável ao meio e às
circunstâncias. Mantém sua
essência por meio da
maleabilidade externa
praticada ao longo de dois
milênios e meio, desde o
primeiro sermão de Buda no
Parque das Gazelas, em
Benares. Na China, o budismo
fundiu-se com o taoísmo; no
Japão, com o xintoísmo; na
Índia, com o tantrismo, o
cristianismo antigo e depois
com diferentes formas de
hinduísmo; no Tibete e no
Sudeste Asiático, com o
xamanismo. Nenhum sistema
filosófico fez tantos
alongamentos musculares.
“O budismo possui grande
espírito de tolerância”,
destaca Ricardo Mário
Gonçalves, estudioso da
expansão dessa doutrina no
Brasil, em reportagem da
revista Terra, em agosto de
2003. “É uma religião que
absorve e interpreta a
realidade local à sua
maneira. (...) Aceita
facilmente o sincretismo
religioso, o que facilita
sua adaptação a novas
culturas.”
Essa opinião encontra
respaldo em dos maiores
escritores do século 20.
Jorge Luis Borges
(1899-1986) chama a atenção
para o fato de que o budismo
“nunca recorreu ao ferro ou
ao fogo, nunca pensou que o
ferro ou o fogo fosses
persuasivos. Quando Asoka,
imperador da Índia,
tornou-se budista, não
tentou impor sua nova
religião a ninguém. Um bom
budista pode ser luterano,
ou metodista, ou
presbiteriano, ou
calvinista, ou xintoísta, ou
taoísta, ou católico, pode
ser prosélito do Islã ou da
religião judaica, com total
liberdade. Em compensação,
não é permitido a um
cristão, a um judeu, a um
muçulmano ser budista.” E
conclui que “a tolerância do
budismo não é uma
debilidade, mas faz parte de
sua índole mesma.”
Ora, é justamente esse
espírito de conectividade e
parceria (para usar uma
palavra hoje em moda) que se
busca nas mais modernas
concepções educacionais,
quando se fala em coisas
como interdisciplinaridade,
multidisciplinaridade,
transdisciplinaridade. Esta
escala de conceitos, de
abrangência crescente,
abre-se se para tradições
antigas e novas formas de
apreensão da realidade.
Se pensamos em cinco séculos
de sincretismo religioso,
diríamos que o Brasil sempre
foi, na essência, uma
cultura transdisciplinar, ou
pelo menos pluralista, ainda
que a face oficial da
educação quisesse parecer
homogênea e cartesiana.
Hoje, isso mudou. O que se
busca é superar fronteiras,
gerando novos potenciais a
partir da diversidade. Eis
aí, portanto, um terreno
propício para o budismo, que
se baseia na tolerância e na
convivência pacífica.
A segunda palavra é ética.
Aqui caberia lembrar a frase
surpreendente de um ativista
político russo muito pouco
afeito ao universo
religioso. “A ética é a
estética do futuro”, disse
Vladimir Ilyich Lenin
(1870-1924), fundador do
regime soviético. Daí se
depreende que nossos atos
são muito mais do que
ferramentas e processos para
se atingir determinado
objetivo, mas configuram,
por si mesmos, um mapa do
nosso universo interior. Uma
escultura, digamos. Em
outras palavras, não pode
haver dissociação entre
nossas táticas e nossos
valores, sob pena de
comprometer nossa trajetória
no mundo.
Sabemos que o budismo é
extremamente ético, a ponto
de às vezes, sob certos
aspectos, parecer mais um
código de posturas do que
uma religião, no sentido em
que a entendemos no Ocidente
– ou seja, cujo foco
principal está na vida
eterna. Borges: “O budismo,
além de ser uma religião, é
uma mitologia, uma
cosmologia, um sistema
metafísico, ou melhor, uma
série de sistemas
metafísicos.” Na verdade, o
budismo é um circuito de
saberes, com conexões nem
sempre fáceis de
interpretar, mas sempre com
profundo sentido
humanístico. Nisso reside
seu fascínio, para as
pessoas mais sensíveis,
esclarecidas, preocupadas
com qualidade de vida e
relações saudáveis.
Pois bem, essa ética budista
– bem perto de uma estética,
por seu caráter suave e
inspirador – afina-se com a
ênfase que se dá hoje, nas
melhores escolas, à
necessidade de se agir de
forma equilibrada, justa e
transparente. As pessoas que
elaboram rumos e processos
na área da educação, em
grande parte intelectuais de
classe média, tendem a ver
com bons olhos essa doutrina
ao mesmo tempo simples e
sofisticada que vem do
Oriente. “O budismo tem
preocupações metafísicas com
as quais o público
intelectualizado se
identifica”, ressalta Flávio
Pierucci, professor de
antropologia na USP, ainda
na revista Terra. “Não
oferece nenhum deus que faz
as coisas para você, e sim
técnicas para você mesmo se
salvar, sem esperar pela
ajuda externa.” É evidente,
aqui, o parentesco dessa
idéia com conceitos
fundamentais do
construtivismo, no âmbito da
educação, segundo os quais
cada indivíduo constrói por
si próprio suas ferramentas
e caminhos para o
conhecimento.
Mesmo dentro do mundo
corporativo, ou pelo menos
em empresas que diríamos
mais arejadas, já se prega
hoje uma humanização de
métodos e procedimentos. Uma
gestão puramente “de
resultado” representa uma
visão arcaica. Se levarmos
em conta que a escola deve
não apenas informar, mas
formar futuros
profissionais, está claro
que a ética tende a ocupar
espaços cada vez mais
importantes. Já não será uma
espécie de perfumaria na
grade curricular, como o
inglês, décadas atrás. A
ética deverá se tornar um
fator sistêmico na formação
dos jovens. Importa não
apenas o que se faz – mas
como se faz.
É certo que o famoso
“jeitinho” brasileiro, traço
marcante de nossa cultura,
pode parecer, à primeira
vista, um elemento
essencialmente antiético, na
medida em que sugere levar
vantagem, burlar a regra,
avançar o sinal. Porém essa
é apenas uma face da moeda.
O “jeitinho” é igualmente a
pedra angular de um
comportamento que valoriza a
flexibilidade, a
criatividade e o senso de
improvisação, fatores
decisivos para se atuar no
mundo de hoje.
Diríamos que o Brasil é um
país com uma ética própria,
ainda em formação. Nesse
processo, o budismo tem
muito a oferecer, sendo,
como de fato é, uma rara
conjunção de maleabilidade
externa e disciplina
interna. A imagem de um
sorvete de fruta ácida, com
uma cobertura doce, quente e
cremosa, ilustra o
contraponto que está no
cerne da nossa cultura – e
isto, vale lembrar, não está
muito longe do símbolo
yin-yang.
Outra palavra a ser lembrada
é profundidade. E
profundidade é o que faz as
coisas menos efêmeras do que
são. Como sabemos, o budismo
associa o sofrimento humano
ao apego àquilo que é
transitório. No terreno do
conhecimento, portanto,
deveríamos ser capazes de
mudar nosso quadro de
referências conforme mudam
as circunstâncias em que
vivemos. Isto não significa,
no entanto, um caráter
leviano ou superficial. Ao
contrário: mudar o que
precisa ser mudado para
deixar respirar aquilo que
nunca muda. Ora, numa
cultura como a nossa, sob o
signo da instabilidade, esse
ensinamento só pode ser de
grande valia. Modela nosso
caráter para enfrentar os
altos de baixos da vida,
trazendo um pouco da
serenidade oriental para
este recanto turbulento do
Ocidente.
A situação em que vivemos
deve-se, em grande parte, ao
nosso próprio modus
operandi, que até pouco
tempo atrás teimava em
incensar a objetividade. O
cérebro esquerdo já não é
mais suficiente para se
viver no mundo de hoje – é o
que ouvimos, cada vez mais,
mesmo nos ambientes
acadêmicos mais
tradicionalistas. Isto
equivale a dizer que o
raciocínio não prescindir da
intuição, cuja sede seria o
hemisfério direito da nossa
cabeça. “A imaginação é mais
importante que o
conhecimento”, afirmou certa
vez Albert Einstein, ele
próprio uma prova cabal de
que a imagem vem antes da
fórmula.
A teoria dos hemisférios
cerebrais (que deu o Prêmio
Nobel de 1981 ao
psicobiologista americano
Roger Sperry), ao contrapor
racionalidade e intuição,
mundo denso e mundo sutil,
estabelece feliz
correspondência com a
geografia do nosso planeta.
O Ocidente, que antes
buscava o Oriente de forma
incisiva, agora o recebe em
sua própria casa. Ou seja, o
fluxo vem de lá, conforme
prega o adágio Ex Oriente
lux. O que vemos acontecer
confirma a idéia de Toynbee
de que o budismo --
serenamente revolucionário
-- tem um papel modelador a
cumprir no século 21, nestas
bandas do planeta. Será de
grande proveito para os
brasileiros do futuro – e
por isso merece espaço na
nova escola, junto com a
maçã de Newton.

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